Normalmente vêmo-los…mas não gostamos. Acreditando que em qualquer coração reside, ou resta, um pouco de compaixão, não ficamos indiferentes aqueles que habitam pelas nossas ruas. Sabemos bem quem são. Estão sujos, cheiram mal, envergam roupas rasgadas, estendem a mão à procura da nossa generosidade, estacionam carros, ou simplesmente dormem, encostados a paredes, e tendo cartões por abrigo… última réstia de dignidade, de alguma posse…de chamar algo de seu. Alguns já vivem alienados do mundo, outros já só se sentem vivos no meio de outros como eles… A vida foi bruta e fria, a solidão foi o que restou. Aceitamos esta indigência, procurando razões que aquietem o nosso desassossego: droga, álcool, doença mental. Passamos por eles, sem parar para olhar os seus olhos; só a sua presença nos inquieta…receio, desprezo, culpa… e sabemos que não os poderemos ajudar. Porquê parar? Mas, e se não andassem andrajosos? Se não estivessem sentados no chão? Se não andassem com sacos? Se não falassem sozinhos? Seriam como nós. Eles somos nós. Entre o que a vida lhes ofereceu, e o que conseguiram viver, interpõe-se um tecto. Conseguem viver sem ele, nós não. Conseguem acordar todos os dias, sabendo que poucos falaram com eles, aguentando a solidão e a falta de carinho. Nós não. Sabem que o seu nome será pronunciado uma ou duas vezes nesse dia, talvez por que não se cruzem que alguém que os conheça, e aguentam. Nós não. Aguentam o frio, a chuva a fome…nós não. Aguentam tão bem a indiferença… nós não. Não seremos um pouco menos que eles? Eles aguentam a privação sem o conforto do calor humano. Nós não! Eles e nós, somos o todo. Todos queremos carinho, felicidade, saúde, amigos; sentir o aconchego do afecto, o respeito por sermos somente como somos, o conforto de termos um amigo por perto…. Nós temos, eles não! Eles são tão “mais” do que tu ou eu, porque vivem com “menos”!